Estas são as personalidades e os acontecimentos de 2017 ordenados pelos utilizadores do site da Renascença. Explore a Radiografia do ano: leia os textos, veja os vídeos.

Se 2016 foi, nas palavras do próprio, o melhor ano da sua carreira, que dizer do também histórico 2017? Os títulos colectivos – campeão espanhol e europeu pelo Real Madrid, terceiro lugar na Taça das Confederações, ao serviço de Portugal – conduziram CR7 às duas principais distinções individuais do mundo do futebol: prémio The Best, atribuído pela FIFA, e a icónica Bola de Ouro, da prestigiada revista France Football. Neste último, a quinta vitória permitiu ao madeirense igualar Leo Messi no topo da hierarquia, com cinco troféus.

Foi a figura que colocou na praça pública o primeiro de muitos emails que alegadamente envolvem o Benfica em práticas de corrupção, originando, ainda que de forma indirecta, aquilo a que o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, rotularia de “clima de ódio” no futebol português. Até ao último Verão, muitas pessoas não sabiam como ocupar as noites de terça-feira. O director de comunicação do FC Porto vai uma vez por semana ao Porto Canal apontar o dedo ao actual tetracampeão nacional de futebol. E, como se tem vindo a perceber, a procissão ainda está no adro
Quão ingrato é isto? Apenas o relógio afastou o surfista português, uma das figuras do desporto nacional de 2017, de um feito ainda mais histórico. Em Julho, “Kikas” fartou-se de quebrar recordes. Primeiro português nos quartos-de-final de uma prova do circuito mundial? “Check”. Meias-finais? Sensacional. Final? Inolvidável. Vitória? Nem por isso. Na decisão do Open J-Bay, na África do Sul, Frederico Morais teve tudo do seu lado. A boa prestação e a confiança a confiança que sentia levavam-no até ao derradeiro “heat”. Na penúltima onda, a classificação de 9.40 “obrigava-o” a uma marca mínima de 8.60 na última. Acabaria por não ter tempo para fechar com chave de ouro uma prestação de primeira água.
O Presidente da República deu a volta ao país, esteve junto das pessoas, ouviu os seus problemas e marcou a agenda política. “O ponto mais doloroso” da sua presidência foram os grandes incêndios de Junho e Outubro, onde esteve presente desde a primeira hora. Foi o ombro amigo de quem perdeu familiares e os bens de uma vida. Começou por dizer que tudo foi feito para evitar a tragédia, mas, perante o avolumar de falhas, exigiu, publicamente, consequências. No dia seguinte demitiu-se a ministra da Administração Interna. O discurso duro de Marcelo deixou o Governo “chocado” e marcou um ponto baixo nas relações entre Belém e São Bento. “Chocado ficou o país” com o que aconteceu, respondeu o Presidente, que também esteve na primeira linha em casos como o assalto a Tancos ou o surto de legionella no Hospital São Francisco Xavier. Recebeu chefes de Estado e andou pelas ruas de Lisboa a falar com pessoas sem-abrigo, uma das suas causas.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lembrou a história do patinho feio que se tornou cisne “resplandecente”, referindo-se a Mário Centeno no dia em que este se tornou presidente do Eurogrupo. À segunda votação, depois de meses de negociações, avanços e recuos, o ministro das Finanças português foi o escolhido para liderar este grupo informal que junta os 19 países do euro. Beneficiou de uma série de equilíbrios entre famílias políticas na União Europeia, mas, segundo alguns analistas, também do facto de ter conseguido provar aos seus pares que haveria alternativa à austeridade, sem descurar o cumprimento do défice. O desafio agora é conseguir estar na Europa e ao mesmo a controlar um Governo que tem parceiros pouco adeptos das políticas de Bruxelas.

Grande parte da época de Moto2, com constantes dificuldades de afinação da KTM que estreava em 2017, deixavam antever um ano de aprendizagem às rotinas da nova moto – em 2016, corria numa Kalex. Mas a recta final foi assombrosa para o jovem piloto de Almada, de 22 anos. Três vitórias em grandes prémios consecutivos – Austrália, Malásia e Valência – catapultaram Miguel Oliveira para um inesperado e histórico terceiro lugar de um português no Mundial de Moto2. Antes da ambição de chegar à categoria-rainha do motociclismo (MotoGP), Oliveira quer a glória suprema na Moto2. Será já em 2018?

Perdeu o filho Luís, de cinco anos, no incêndio de 17 de Junho, mas conseguiu ir buscar forças e coragem para liderar a Associação de Apoio às Vítimas de Pedrógão Grande. Nádia Piazza não esquece “a grande tristeza”, mas promete não baixar os braços até que seja feita justiça e para que nunca mais volte a acontecer uma tragédia igual em Portugal. Pediu independência e imparcialidade no apuramento da verdade, apoio psicológico para as vítimas e alertou para a desorganização nos fundos de solidariedade. O trabalho da associação foi reconhecido com o Prémio Cidadania 2017, da Plataforma das Associações da Sociedade Civil.
De artista ignorado pelas massas a herói nacional. Salvador Sobral fez história ao tornar-se no primeiro português a ganhar o Festival da Eurovisão, realizado na Ucrânia. O tema intimista “Amar pelos Dois”, composto pela irmã Luísa Sobral, conquistou os fãs e o júri, sendo o mais pontuado de sempre, com 758 pontos. Mas a fama não lhe tirou a irreverência. O discurso da consagração foi em registo “punk rock”, anti-sistema. Disse esperar que “esta possa ser uma vitória para a música, para as pessoas que fazem música que realmente significa alguma coisa. A música não é fogo-de-artifício. Música é sentimento. Vamos tentar mudar isto e trazer a música de volta”. Salvador regressou a Portugal em clima de festa, mas os seus problemas de saúde agravaram-se e teve que fazer uma pausa na carreira. Tinha a vida em risco. Em Dezembro, recebeu um novo coração e está a recuperar da intervenção cirúrgica.
O Benfica nunca tinha sido, até 2017, tetracampeão. Ao “tetra” juntou-se a vitória na Taça de Portugal. Aos comandos da águia, Rui Vitória foi bicampeão, no plano pessoal, guiando a equipa ao inédito “tetra” a 13 de Maio, dia de visita do Papa Francisco a Portugal e da tradicional peregrinação a Fátima. Cinco golos sem resposta frente ao Vitória de Guimarães selou a conquista e levou milhões de benfiquistas às ruas, um pouco por todo o país. Duas semanas depois, outra vez o Vitória na rota do Benfica: depois do tão almejado “36” no campeonato, a 26ª Taça de Portugal dos encarnados. O resultado, esse, foi bem mais contido, mas o 2-1 final serviu para o gasto.
O alegado uso indevido de fundos numa instituição social com provas dadas indignou o país e causou ondas de choque no Governo. Uma investigação da TVI fez rebentar o caso Raríssimas, uma associação sem fins lucrativos, financiada pelo Estado e por donativos privados, que apoia pessoas com deficiências e doenças raras. As suspeitas de uso indevido de fundos para benefício próprio e gestão abusiva recaem sobre a presidente Paula Brito e Costa, que apresentou a demissão, mas continua como directora-geral. Ex-consultor nas Raríssimas, Manuel Delgado passou a ex-secretário de Estado da Saúde. Demitiu-se depois de uma entrevista em que foi confrontado com uma viagem com Paula Brito e Costa ao Brasil. O ministro da Solidariedade e Segurança Social foi vice-presidente da assembleia geral, entre 2013 e 2015. Vieira da Silva diz estar “de consciência tranquila” e ordenou uma inspecção à instituição social, que corre o risco de encerrar deixando 200 pessoas sem apoio.
"A maior burla da história da Justiça portuguesa julgada até ao momento". Foi com estas palavras que o juiz condenou 12 dos 14 arguidos no caso do Banco Português de Negócios (BPN). Oliveira e Costa, antigo presidente da instituição e secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, recebeu uma pena de 14 anos de prisão, pela prática dos crimes de falsificação de documentos, fraude fiscal qualificada, burla qualificada e branqueamento de capitais. O esquema custou, pelo menos, 3,6 mil milhões aos portugueses, na sequência da queda e nacionalização do BPN. E a factura ainda não está fechada.
Foi o pior ano e o mais doloroso de sempre em matéria de incêndios. Mais de 110 pessoas morreram, muitas perderam tudo e 442 mil hectares arderam até ao final de Outubro. A primeira grande tragédia aconteceu a 17 de Junho, com epicentro em Pedrógão Grande. O fogo matou 66 pessoas, cerca de metade das quais na estrada nacional 236, que não tinha sido cortada. Mais de 200 ficaram feridas. Foi criada uma comissão independente e os especialistas detectaram falhas graves no ataque ao incêndio e na prevenção, potenciadas pelas condições meteorológicas. Foram constituídos vários arguidos. Quatro meses depois, uma nova tragédia. Nos grandes fogos que devastaram o centro do país, a 15 e 16 de Outubro, morreram mais 45 pessoas. Novecentas casas e 500 empresas foram atingidas. Nem o Pinhal de Leiria escapou. Poucos dias depois, as consequências políticas: demite-se a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, após um discurso do Presidente Marcelo. O país uniu-se numa enorme onda de solidariedade com as vítimas.
Novembro foi o mês em que uma bactéria mortal atacou num hospital público. Um surto de legionella no São Francisco Xavier, em Lisboa, infectou pelo menos 56 pessoas e seis acabaram por morrer. O ministro da Saúde disse que “alguma coisa correu mal” e pediu desculpa em nome do Estado. Foi desencadeada uma investigação para apurar as causas do surto. A fonte foi pelo menos uma das torres de arrefecimento do hospital, revelou mais tarde a Direcção-Geral da Saúde. Mas a empresa responsável pela manutenção garante que “todos os procedimentos foram implementados correctamente” e nega responsabilidades. O Ministério Público impediu, para já, a divulgação do relatório preliminar com as conclusões do que aconteceu no São Francisco Xavier. Na sequência do caso, o Parlamento aprovou a obrigatoriedade de fiscalização à qualidade do ar para impedir novos surtos.

O Moreirense acabou a época futebolística de 2016/17 praticamente com a corda na garganta, sofrendo para assegurar a manutenção na Primeira Liga. Em Maio, contra o FC Porto, na última jornada, os cónegos selaram esse objectivo, mas essa foi apenas a segunda explosão de alegria do ano. Em Janeiro, os minhotos chegavam à “final four” da Taça da Liga e eram cotados, no plano teórico, como a equipa mais frágil, perante a concorrência de Benfica (detentor do troféu), Sporting de Braga e Vitória de Setúbal. Na realidade, nada mais falso. Nas meias-finais, a equipa então comandada por Augusto Inácio daria a volta ao marcador e afastaria o Benfica com estrondo (3-1). Na final, diante do Sporting de Braga, nova surpresa: 1-0 no marcador e a primeira Taça da Liga do “outsider” a quem ninguém atribuía grandes possibilidades de sucesso.
"No limite, pode não ter havido furto nenhum" em Tancos. A hipótese admitida pelo ministro da Defesa, Azeredo Lopes, acabou por ser contrariada pela realidade. As armas de guerra foram levadas dos paióis, num assalto detectado a 28 de Junho. O episódio colocou a nu falhas de segurança numa instalação militar sem vídeovigilância, uma vedação ferrugenta e com poucas rondas. Os meses passavam e nem rasto das armas. Até que, em Outubro, uma denúncia anónima revelou que estavam escondidas ali perto, a 20 quilómetros de Tancos. Foi recuperado todo o material furtado e ainda mais uma caixa que não estava na lista inicial. As armas foram encontradas, mas ninguém foi detido. O Presidente da República exigiu uma investigação total, “doa a quem doer”, mas ainda não foram divulgadas quaisquer conclusões.
Três marcos de fé concentrados num só. O Papa visitou Fátima para canonizar Jacinta e Francisco Marto, no ponto alto das comemorações do centenário das aparições. A primeira deslocação de Francisco a Portugal durou 23 horas e 43 minutos. E foram muitos os momentos de alegria e emoção, como a chegada ao santuário, a 12 de Maio, entrecortados por minutos de silêncio e oração diante de Nossa Senhora, partilhados entre o Papa e centenas de milhares de fiéis vindos de todo o mundo. Francisco entregou-se a Nossa Senhora e agradeceu as “bênçãos sem conta” que a Virgem estendeu ao mundo a partir de Fátima. Falou do drama dos refugiados e declarou os doentes “um tesouro da Igreja”: nas suas chagas vive “Jesus escondido”. Emocionou-se na procissão do adeus e questionou quem recorre a uma “‘santinha’ para obter favores a baixo preço”.
A derrota pesada nas eleições autárquicas de Outubro foi o fim de Pedro Passos Coelho na liderança do partido. Após alguns dias de reflexão, propôs directas internas e anunciou que não seria candidato. “Ficar seria oferecer a caricatura que estamos agarrados ao poder interno”, disse à família social-democrata. Passos deixa a liderança do PSD ao fim de sete anos. Fica para a história de Portugal como o primeiro-ministro que sucedeu a Sócrates e implementou o plano de resgate da troika, marcado por duras medidas de austeridade, num Governo de coligação com o CDS, de Paulo Portas. Voltou a ganhar as eleições de 2015, mas sem maioria. Ainda tomou posse, mas foi derrubado 11 dias depois no Parlamento por uma inédita união dos partidos de esquerda. Na oposição, a estratégia passou por esperar pelo “diabo”, mas a chamada “geringonça” funcionou, as metas foram sendo cumpridas e as más notícias não apareceram. Passos não conseguiu ser, na oposição, a pedra na engrenagem do Governo e o desaire autárquico foi a estocada final. Pedro Santana Lopes ou Rui Rio? Os militantes do PSD vão escolher quem será o novo presidente do partido
Depois de mais de cinco anos na categoria de “lixo”, devido ao pedido de intervenção da troika, o rating da dívida pública portuguesa subiu acima da linha de água. A Standard & Poor's foi a primeira das três agências de notação a fazê-lo, em Setembro, e mais cedo do que o esperado. Em Dezembro nova surpresa positiva. A Fitch retira Portugal do “lixo”, não em um, mas em dois níveis. A dívida portuguesa passa a ser considerada “investimento de qualidade”, ao nível de países como Itália, e a decisão tem impacto imediato na queda dos juros. Em termos práticos, além de favorecer as condições de financiamento da república, esta avaliação favorece as condições de financiamento das famílias e das empresas.

A Selecção Nacional chegou à Rússia com o estatuto de campeã europeia, mas estreou-se com um empate a duas bolas diante do México. Seguiu-se o triunfo diante da Rússia (0-1) e, para selar o apuramento juntamente com os mexicanos, uma goleada à frágil Nova Zelândia (0-4). Nas meias-finais, é caso para dizer “Bravo, Chile”. Herói no desempate por penálti, o guarda-redes chileno foi providencial para que a equipa das quinas não convertesse nenhum dos castigos máximos e para que os detentores da Copa América seguissem para a final, na qual acabariam por ser derrotados pela Alemanha. Quanto à formação de Fernando Santos, encerraria o pódio com triunfo sobre o México, por 2-1. Neste jogo, já o capitão Cristiano Ronaldo havia regressado a casa. Fica a sensação de que algo mais poderia ter sido feito pela campeã da Europa.
A falta de chuva é uma das memórias do ano. No final de Novembro, mais de 97% do território estava em seca severa e extrema. Há 46 anos que o Outono não era tão seco. E os meses anteriores seguiram a mesma linha. Os níveis das barragens desceram para níveis preocupantes, a nascente do Douro chegou a secar durante semanas, as colheitas e o gado ficaram em perigo. Foi aprovado um plano de contingência. Perante a possibilidade de a água deixar de correr nas torneiras, Viseu começou a ser diariamente abastecida por uma coluna de camiões cisterna. O Governo lançou uma campanha de poupança da água. A falta de chuva ameaça encarecer o preço da energia e tornou ainda mais premente a complexa gestão dos caudais dos rios com Espanha
De primeiro-ministro a corrupto, segundo o Ministério Público, José Sócrates foi formalmente acusado. A notícia surgiu a 11 de Outubro, 1056 dias e quase três anos depois da detenção no aeroporto de Lisboa, em Novembro de 2014. No âmbito da “Operação Marquês”, é suspeito de 31 crimes: três de corrupção passiva, 16 de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documento e três de fraude fiscal qualificada. De acordo com a investigação, Sócrates acumulou ilicitamente 24 milhões de euros na Suíça, com origem nos grupos Lena, Espírito Santo e Vale de Lobo, através de intrincados esquemas. Os factos terão ocorrido entre 2006 e 2015, abarcando o período em que foi primeiro-ministro. Juntamente com Sócrates, que nega tudo, foram acusados outras 27 empresas e pessoas, entre as quais o ex-líder do BES Ricardo Salgado, os antigos homens fortes da PT Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, o fundador do Grupo Lena Joaquim Barroca, o antigo ministro socialista Armando Vara e Carlos Santos Silva, amigo do ex-primeiro-ministro.
Três anos após a derrocada do BES, negócio fechado. O fundo norte-americano Lone Star comprou 75% do Novo Banco, a parte boa do “banco mau”. O Fundo de Resolução, do qual faz parte o Estado português, mantém uma participação de 25%. A Lone Star assume o controlo, mas não pagará qualquer preço. Acordou, sim, injectar 1.000 milhões de euros para capitalizar o Novo Banco. O Fundo de Resolução fica com a responsabilidade de compensar o Novo Banco por perdas que venham a ser reconhecidas com os chamados activos “tóxicos” e alienações de operações não estratégicas, no máximo de 3,89 mil milhões de euros. A oposição arrasou o negócio, mas o Governo diz que defende os contribuintes e limita o risco para o erário público
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